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O marvado atacou outra vez

 Quem acompanha a F-Truck há pelo menos dez anos,  provavelmente  deve se lembrar   do inicio de carreira  na categoria do paranaense  Leandro Totti, de  Londrina.  Totti já tinha experiência em pilotar carros de corrida e sua primeira corrida com caminhão aconteceu no autódromo de Brasília, em junho de 2003, no lugar de seu conterrâneo, Ernesto Pívaro Neto, o Gardenal, que estava parando de correr.  Das 32 voltas da prova, o estreante completou 25 e garantiu o 11º lugar no resultado final. Nada mal para quem tinha largado da 18ª posição. 
 
Na corrida seguinte,  já em sua cidade  natal,  com outro caminhão, um menor com motor de nove litros, e numa pista que ele conhecia bem, não hesitou em sentar a bota: ficou com o quarto tempo nos treinos livres da sexta-feira, mas no grid sua posição era depois do rabo da vaca, por ser sido excluído tecnicamente no treino classificatório. E na prova, embora tenha concluído todas voltas (32),  também foi excluído por questões técnicas, as quais talvez ele nem se lembre mais quais eram. 
 
Enfim, pode se dizer que havia feito uma boa estreia com o novo caminhão. O equipamento respondia bem e melhorava a cada prova. Por conta disso ele não pensava duas vezes para acelerar, ao ponto que seu arrojo, ousadia e outros adjetivos cabíveis a um piloto jovem - que surgia como o arremedo de um futuro campeão da  F- Truck - passaram a ser vistos também como características de um destruidor de caminhões. Por conta da tocada forte e ousada, que marcou seu estilo Totti de guiar, por conta do qual não foi uma nem duas vezes que os mecânicos de sua equipe tiveram serviço extra no boxe para reconstruir o caminhão.
 
Vez ou outra, o bom resultado acontecia e trazia expectativa a toda equipe, que animada seguia em frente ao seu modo, com um ambiente alegre no boxe e muita seriedade e compromisso na hora certa. Algo mais ou menos no esquema “pobre, mas limpinho” fazendo direito a lição de casa, ao ponto de vencer corridas e superar equipes com muito mais poder econômico e técnico.  A primeira vitória aconteceu em 2004, na etapa de Campo Grande/MS, depois em Interlagos, no ano seguinte, Caruaru, em 2006 e Tarumã em 2007.
 
Os resultados o deixaram na condição de piloto que um dia poderia ganhar um título, caso prosseguisse no mesmo ritmo, o que não aconteceu na época, pois com o fim da Londrina Truck Racing acabou também a boa fase de Totti.  Sem caminhão foi ser piloto em uma das equipes da presidente da F-Truck com a missão de desenvolver um novo equipamento, mas, como ele mesmo disse, “não rendeu”, ao menos com aquele caminhão. Em 2010, ainda no mesmo time, começou a trabalhar com outro truck e os resultados começaram a aparecer.  Este ano, em três corridas ele subiu da 10ª posição para a liderança do Campeonato Brasileiro, e no ritmo que segue na competição está “quase” convencido de campeonato está praticamente em suas mãos.
 
Mas também não é bem assim, pois como todas as pessoas Totti tem sua porção de superstição e não abusa da sorte. Acompanhem: na a sexta-feira à tarde, dia 03 de agosto, ao final dos treinos livres para a 6ª etapa do Brasileiro, em Cascavel, deparei com ele no boxe onde estava instalada a balança de pesagem oficial. Também estavam lá outros pilotos, e ele, com cara de feliz, como sempre. Me aproximei, no momento em que ele já ia saindo do boxe, e sinalizei a ele com três dedos da mão direita levantados, numa alusão à terceira  vitória seguida que poderia acontecer naquela etapa.
 
 Ele parou e sorriu com a minha provocação. Mandou um sorriso amarelo - para disfarçar a inevitável expectativa de mais uma vitória, porque seu caminhão estava com o mesmo desempenho da etapa anterior, em São Paulo – parou e disse: “Não quero falar nisso, pode dar zica”.  Na tentativa de prosseguir com a conversa, ponderei: “é melhor mesmo não abusar da sorte, mas bem um lugarzinho no pódio ficaria de bom tamanho, ao menos você continuaria forte na briga pelo título”. Ele devolveu: “se for tá muito bom”, disse com ar de quem estava querendo apenar ser gentil, e prosseguiu caminhando em direção ao seu boxe. 
 
Totti é um cara simples, brincalhão, como já disse em outra ocasião, e também não muda “o jeito de andar” quando está em alta na categoria. Também não ostenta qualquer ar de superioridade mesmo vivendo seu momento de glória na categoria, o piloto a ser batido pelos outros aspirantes ao título. Ele responde a tudo que  lhe é perguntado e com simplicidade. Por isso, cheio de boas intenções lhe perguntei porque está escrito “O Marvado” no parabrisa do seu caminhão abaixo do número 73? “Ah, isso é coisa do meu patrocinador. Você conhece aquela história dos galos de briga, o Bom e o Marvado?”, Sorri. Na verdade, um sorriso malicioso sinalizando que estava preparando mais uma das suas. E aconteceu, porque mais uma vez O Marvado foi melhor que o Bom, ou os bons, como se sabe. Até a próxima, com alguma conversa fiada sobre a final do Campeonato Sul-Americano, em Córdoba, onde a F-Truck vai correr pela primeira vez. 

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